Um dia esse dia vai chegar e você não vai saber, porque você não tem nada haver com isso. Eu não acredito em você.
Ele não sabia, realmente.
No mercado. Qual sorvete eu compro?, ah vai qualquer um. Quando chegou ao mercado a pequena trabalhadora perguntou o que o homem havia comprado. Veja você mesma sua imbecil, pergunta idiota. Naquele momento, o homem desejou que todas as pessoas daquele lugar morressem, e tudo ficou cinza, menos sua embalagem de sorvete de milho verde, que pegou e foi embora. A vendedora agora cinza gritou para o hommem que acabava de sair pela porta cinza automática. Ele pareceu não fingir escutar. E continuou sua marcha nem negra nem alva, comendo seu sorvete com as mãos, como um animal. Pegou as chaves cinzas e colocou-as violentamente na maçaneta, como se estivesse tendo uma convulsão por causa de seu sorvete. Subiu as escadas, mais escuras do que o usual. Ele não havia percebido, e o dia, aquele dia, que é hoje, ele não percebeu. Abriu a porta do quarto, onde caixas de diversas coisas, inclusive de sorvetes, estavam empilhadas de maneira irregular: abertas, fechadas, desmontadas, por cima, por baixo, cobriam as persianas, por sua vez a janela, e por sua vez a luz cinza daquele dia. POR QUÊ?! NINGUÉM VAI SE IMPORTAR NÃO É? VAI EMBORA! Então eu fui embora. Fiquei parado no pé da escada, piando. Ah, sim, você não sabe, mas eu sei e ele sabe. Eu sou um sábia, e sim, eu participo da tragédia. Tragédia? Ah, sim, você também não sabe. Deixa pra mais tarde.
Eu não estava lá, no quarto, mais eu sabia o que acontecia lá dentro, porque desde o início, além de ser Turdus Rufiventris, eu sou o narrador.
A comida era horrível, depois da hora do sorvete só tinha aquela comida das semanas passadas. Ele se mordia, ele mesmo era melhor do que sua comia, tentava provar pra ele mesmo. Agora ele chorava, sangrava e soluçava, pois se deu conta de que aquele dia chegara. O tal se levantou, de súbito, empurrado todas as caixas possíveis com o seu braço, espalhando o sangue. Correu para a janela, quebrou-a, mas os cacos de vidros não o machucaram, tal era sua velocidade. Pulou por cima da varanda e aguardou a queda que o livraria de seu sabiá irritante e do mundo cinza. Quando ele chegou no chão. A única coisa que ele consegui fazer foi olhar. Olhar. Passivamente. O asfalto. Os carros. O mundo, agora recolorido. Seu sabiá estava agora em seu rosto. Bicou sua testa. O homem sentiu o cheiro de sangue. Levantou-se, ofegante e pensou. Morri.
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