A noite tinha caído sobre nós, como chuva de estação. Na penumbra fornecida por alguns postes ao longo do caminho de pedra da praça pelo qual seguíamos, eu via seu sorriso, estampado ali, como sempre estivera. Ouvia o barulho das pessoas em festa, reunidas em suas casas.
De fato, tantas vezes eu via sua expressão de conformidade, que passei a duvidar naquele momento da minha visão; passei a acreditar que eu estava apenas imaginando. Como dizia meu pai, ‘’São memórias soltas e rotineiras nas quais insistimos em acreditar’’. Mas eu queria acreditar.
Então eu tentei me lembrar do que nos levou a decidir caminhar pela praça à noite, naquela noite tão especial, chutando folhas para fora do caminho. Parecia que haviam passado muitas horas. Apenas lembrei de estar chorando, na minha casa, com o jantar à mesa e todos brigando. Fugi. Corri para a estação de trem, mas ele não deixou eu embarcar. Nos meus pensamentos, ele me olhava desaprovando, mas o que podia fazer?
Nada. E foi por isso que desisti de fugir no trem, e, no caminho de casa, toquei sua porta. Egoísmo da minha parte interromper o jantar? Talvez, mas naquele momento eu precisava chorar tranqüila, e só conseguia fazer isso em seus braços. Seus quentes e confortáveis braços que me acolhiam, e me faziam sentir protegida. E ninguém falava nada; não era necessário.
E seguíamos pelo caminho de pedra, ele mantinha seu braço me envolvendo e, de vez em quando, fazia menção de chorar. Ele sempre me parecera tão duro e impenetrável que era curioso vê-lo tão vulnerável desse jeito. Olhava pra baixo, tristonho. E caminhávamos em sintonia.
Então ele me puxou para um banco ao lado de um poste de luz, e me sentou em seu colo, me envolvendo com os braços. E ele começou a falar.
- Obrigada. Ontem não agüentei a idéia de que aquela poderia ser a última vez que iria te ver, não sei por quanto tempo. Obrigada por fugir, obrigada por ser cabeça-dura. Eu te amo.
Sorri para minhas pernas. Ele ainda me abraçava. Ainda ouvíamos os barulhos de festa, mas a praça parecia isolada, inibida.
- Eu também te amo. – e foi só.
Por cima de seu ombro, pude ver raios de luz subindo ao céu; estouraram. Gritos, aplausos, beijos, abraços, felicidades, desejos.
- Feliz ano novo, meu amor.
Mas eu já tinha apagado [...].
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