segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Dia - Ervilhas do Outono

   Ela olhava atentamente para a pratileira. Haviam três marcas de ervilha em calda. De vez em quando, ela tirava algumas latas e verificava a validade abaixando a cabeça infantilmente ou girando a lata para procurar amassos. Algumas pareciam boas, nos dois quesitos, mas ainda assim hesitava.
   Era uma situação estranha de se ver no mercado, pois aparantemente a moça havia ido lá somente para comprar tal lata. usava um suéter vermelho um pouco grande demais, jeans e cabelos castanhos soltos.
   Quando parecia ter escolhido uma boa lata, riu consigo mesma, de maneira um tanto abitolada. Mas as pessoas azuis, rosas e vermelhas que passavam por ela sorriam. Pessoas coloridas? Essa é nova. E riu de novo, agora o lugar todo parecia ter adquirido um tim mais quente, como se tudo agora fosse outono. Riu mais alto.
    No caixa, a vendedora sorridente lhe disse que não precisava pagar, e de maneira casual a garota sorriu e saiu do estabelecimento pulando, feito criança. Onde está meu carro? Olhou em volta e achou uma bicicleta vermelho-berrante. Deu de ombros e montou, com ar inocente. Viu na cesta da bicicleta um cachecol amarelo, o qual o colocou, sem saber exatamente o que fazia. Respirou fundo e sentiu um aroma leve de maçã. E pedalou.
   Olhou para os lados, na rua, e viu um homem, cinza, a primeira pessoa que não era colorida. O homem entrou violentamente em sua casa, mastigando algo. Oxi pensou ela, como se pretendesse ajudar. De repente, pulou da bicicleta estacionou na casa ao lado (a sua própria). Balançando o cachecol para tirá-lo, ela tocou a campainha e catarolou um "Olááá?!" ouviu alguns gritos com uma segunda pessoa e esperou, sentada e sorrindo, contando pedras no chão, como se de alguma forma estivesse drogada, ou se estivesse fingindo estar assim. Riu de sua brincadeira e alguns segundos depois viu o homem cinza pular da janela, estilhaçando pedaços de vidros coloridos.Quando chegou ao chão, no rosto do homem havia um pequeno passarinho, cutucando-o. O homem se levantou, com o passarinho agora voando acima de sua cabeça, ele murmurou algo, e a moça correu para lhe socorrer.
   O homem sangrava, como se algum macaco que comeu sorvete o tivesse mordido em seus membros. Ela riu da ideia. E ele gritou de dor. Ela olhou para seus cabelos bagunçandos e procurou um par de olhos, preocupada . O seu corpo sujo não era mais cinza, era amarelo. O sabiá pousou nos ombros dela e piou. Ela se sentiu feliz, mas ele não. Então sua vida pareceu não pareceu importar para ela. Morri. 

Olá. Sou eu, o sabiá. A vida é engraçada: ás vezes seu mundo parece perder as cores, e você pensa que morreu, como nossos caros amigos. Mas e quando o seu mundo parece ter mais cores que o possível? O que você pensa?

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