Saí de casa às sete e meia, estava óbvio que não venceria discussão alguma. Nem dormiria em casa naquela noite. Entrei no carro, girei a chave, liguei o ar condicionado e acendi o cigarro. Deixei expirar.
Era horrível ter de brigar com sua mulher, ela aquela parte de mim, apesar de sermos tão diferentes. Perfume amarelado, problemas ao gesticular, voz rouca, tudo aquilo que achava tão peculiar e misterioso em sua timidez. Senti um embrulho no estômago com a saudade que senti. Desliguei o carro e abri as janelas.
Olhei para fora e parei para observar as luzes amarelas sobre o cenário urbano. Ouvi os barulhos dos carros aumentando pelas ruas e depois diminuindo, em orquestra com o som dos gafanhotos e rãs no mato que tentava invadir o asfalto. Um pouco mais relaxado diante de tal perspectiva sinestésica, olhei para as nuvens amareladas com as luzes da cidade.
De repente, ouço a porta do carro abrindo-se e espero pelo pior. Olho diretamente e a vejo correndo vestindo uma bermuda e uma das minhas camisas, claramente grande demais. Ela fecha a porta do carro com um suspiro ao sentar no banco de carona. Ouço uma voz tímida se desculpar (Sempre admirei sua humildade Como sou coração mole) mas não olho diretamente para ela.
Ela soluça, sinto cheiro de chocolate, e para de falar. Trocamos olhares momentaneamente, ela ri. Droga. Eu também sorrio. Me inclino para abraçá-la e não sinto mais embrulho algum. Borboletas.
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