Tiro do gancho. Por algum motivo meus pés continuam bem frios. Chama. Eu sei que eu sou
só um mas, ainda assim... A telefonista atende. "O de sempre?"
Ei, será que eu sempre peço demais, moça? Sei bem
que você também deve ter muito medo. Sem qualquer poesia, poderia qualquer dessas vezes simplesmente me dizer que o mundo é demasiado e cansativo? Que todo dia tem vontade de desistir e de não-desistir, ao mesmo tempo ou não. Desistir? Ainda que todo dia você
só siga instruções? Ainda que trabalhar seja só passar uma linha por vez de cada vez? Não duvidaria da sua confissão, no conforto da sua gratuita anonimidade. Mas por algum motivo não ouço mais a sua voz desde a primeira pergunta.
O telefone chama mais uma vez. Ou fica mudo, não sei. Se eu sei o que pensas? O seu silêncio sempre me diz dessas coisas; co-costurando metáforas bambas, embriões do não-dizer –se der, alguma dessas vezes ainda falo com
alguém de graça.
:') textos perfeitos, como sempre.
ResponderExcluiresse.
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